Upwelling (ou afloramento) e Corrente Costeira de Portugal
O fenómeno do “upwelling” (ou afloramento) costeiro e a Corrente Costeira de Portugal ocorrem ao largo da costa ocidental Portuguesa durante os meses de Verão (Julho, Agosto, Setembro). Ambos estão associados à divergência junto à costa provocada pelos ventos do quadrante norte que predominam nessa altura do ano.
O vento à superfície no oceano arrasta as camadas superiores deste (primeiros 100 ou 200 m) sendo este movimento desviado para a direita (no Hemisfério Norte) por efeito da rotação da Terra (ver dispositivo experimental). A corrente induzida pelo vento tem uma intensidade que decresce com a profundidade, sendo praticamente nula a partir de 100 ou 200 m (esta profundidade depende da intensidade do vento, entre outros factores). O desvio desta corrente para a direita vai-se acentuando com a profundidade conforme a representação na Fig. 1a. O efeito resultante desta corrente na camada superior do oceano é um transporte de água na direcção perpendicular ao vento e para a direita deste (no Hemisfério Norte). Então, considerando a costa ocidental Portuguesa e um vento predominante de norte, este vai induzir um transporte das águas costeiras superficiais para o largo (i.e., para a direita do vento). Com o afastamento destas, as águas que estão subjacentes vão ascender à superfície (Fig. 1b) e esse é o fenómeno do “upwelling” (ou afloramento) costeiro. Mas essas águas são mais frias do que eram as águas que estavam à superfície e, portanto, a temperatura da superfície do mar baixa. Esta manifestação à superfície do fenómeno do afloramento costeiro pode ser facilmente detectada a partir de imagens de detecção remota da temperatura da superfície do mar obtidas por satélite (Fig. 2a).
Mas o fenómeno do afloramento costeiro tem como consequência, para além do arrefecimento das águas, o seu enriquecimento em sais nutrientes (nitratos, fosfatos e silicatos). Isto acontece porque as águas subsuperficiais, que estão a ser levadas para a superfície, têm maior concentração desses sais do que as próprias águas da superfície. Então teremos grande quantidade de nutrientes a ser levada para uma camada onde a radiação solar consegue penetrar, ou seja, teremos as condições ideais de alimento e luz para o desenvolvimento do fitoplâncton (Fig. 2b). E este aumento da produtividade primária (primeiro elo da cadeia trófica) vai levar ao desenvolvimento de toda a restante cadeia alimentar, desde o zooplâncton até aos peixes e outras espécies marinhas que se alimentam do plâncton ou de outros peixes.
Fig. 1 - Representação esquemática do fenómeno do Upwelling.
Fig. 2 - Imagens de detecção remota por satélite no domínio (a) do infravermelho (temperatura da superfície do mar; imagem recebida e processada na Estação de Oceanografia Espacial do Instituto de Oceanografia) e (b) do visível (concentração em pigmentos da clorofila), em Julho de 2002 As temperaturas mais baixas próximo da costa ocidental de Portugal e a grande concentração em pigmentos da clorofila são evidências do fenómeno do “upwelling” nessa região.
A água sub-superficial que atinge a superfície na zona costeira durante o “upwelling” é transportada para o largo sob a forma de filamentos de água fria e rica em nutrientes, podendo atingir até centenas de quilómetros de extensão. Uma região de “upwelling” é, portanto, uma zona de forte interacção entre as águas costeiras e as águas do oceano aberto, havendo trocas de água, matéria orgânica e inorgânica.
A região de divergência junto à costa gerada pelo transporte para o largo da camada superior do oceano, para além de criar os movimentos verticais referidos, também gera, indirectamente, uma circulação horizontal. Vejamos como: o transporte de água para o largo leva à inclinação da superfície livre (esta fica mais baixa perto da costa do que ao largo) e esta inclinação gera um gradiente de pressão ao qual está associada uma corrente (que resulta do equilíbrio entre a força do gradiente de pressão e a força de Coriolis devida à rotação da Terra) ao longo da costa e no sentido do vento. No caso do “upwelling” ao largo da Península Ibérica, esta corrente está dirigida para Sul – é a Corrente Costeira de Portugal.
Estudos do Instituto de Oceanografia sobre o upwelling costeiro de Portugal
Bibliografia
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